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Jogos

O que fica depois de desligar

Gustavo do Carmo Silva · · 3 min de leitura

Acho que os jogos cativam a gente porque eles confiam na nossa capacidade de descobrir.

Eles não precisam nos dar uma resposta para cada dúvida. Às vezes mostram uma porta fechada, um caminho estranho ou um inimigo que parece impossível, e deixam o silêncio fazer o resto. A vontade de entender vira movimento. A gente tenta.

Hollow Knight é um dos jogos que mais me fazem pensar nisso. Ele não se organiza em volta de um tutorial dizendo exatamente onde ir, o que sentir ou qual é a próxima resposta certa. Você cai naquele mundo bonito e melancólico, anda um pouco, erra um salto, morre para um chefe, encontra uma passagem que não tinha visto. E, sem perceber, começa a aprender a linguagem daquele lugar.

Existe algo muito especial em entender uma coisa porque você ficou tempo suficiente com ela.

Em Hollow Knight, um banco vira alívio. Um atalho vira memória. Um mapa incompleto não é um problema a ser corrigido imediatamente; é um convite para prestar atenção. O jogo não te chama de incapaz por não saber. Ele só espera você observar de novo e tentar de outro jeito.

Talvez seja por isso que a descoberta fica tão viva. Uma resposta entregue pode ser útil. Uma resposta encontrada acaba ficando com a gente.

Morrer em um jogo pode ser frustrante, claro. Mas, quando ele é bom, a falha quase sempre deixa uma pista: eu fui cedo demais, entrei pelo lugar errado, ainda não aprendi o ritmo, preciso parar de apertar o botão por impulso.

Não é uma punição vazia. É uma conversa sem palavras.

Eu gosto dessa ideia porque a vida também tem muito disso. Nem sempre alguém vai sentar ao nosso lado e explicar como lidar com uma fase nova. Às vezes a gente só tem um caminho meio escuro, uma tentativa que não deu certo e a sensação de que deveria existir um mapa melhor.

Mas a gente vai mesmo assim. Tenta. Falha. Volta um pouco diferente.

No fim, talvez o que mais me prenda aos jogos não seja vencer. É poder existir em um mundo que não se revela inteiro de uma vez e, ainda assim, continuar curioso.

Hollow Knight me lembra que nem toda ausência de explicação é abandono. Às vezes é espaço. Espaço para reparar, criar coragem e encontrar uma resposta que ninguém poderia ter dado por nós.

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